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APAMPESP - Associação de Professores Aposentados do Magistério Público do Estado de São Paulo

O voto das pessoas idosas fortalece a democracia

Ao longo da história, muitos pensadores se dedicaram a refletir sobre a velhice e sobre o lugar das pessoas idosas na sociedade. Cícero, por exemplo, defendia que envelhecer não deveria ser compreendido como uma doença ou um peso, mas como uma etapa da vida em que a experiência, a razão e a sabedoria podem alcançar sua maior maturidade, permitindo maior distância dos impulsos e excessos da juventude.

Sêneca, por sua vez, compreendia a velhice como parte natural e inevitável da existência humana. Para ele, cada fase da vida deveria ser vivida com serenidade, valorizando o tempo presente e reconhecendo a riqueza da experiência acumulada.

Séculos depois, Simone de Beauvoir, em sua importante obra A Velhice, chamou a atenção para uma questão que permanece extremamente atual: a maneira como a sociedade frequentemente marginaliza as pessoas idosas e transforma o envelhecimento em uma espécie de invisibilidade social. Envelhecer, entretanto, não significa deixar de existir socialmente. Muito menos deixar de ter voz.

E é justamente sobre essa voz que precisamos refletir.

Que lugar o Brasil reserva hoje às suas pessoas idosas?

Temos uma Constituição Federal que reconhece direitos fundamentais, além do Estatuto da Pessoa Idosa, que representa uma importante conquista da sociedade brasileira. No entanto, entre aquilo que está assegurado na legislação e aquilo que efetivamente acontece no cotidiano ainda existe uma distância preocupante.

Persistem situações de abandono, isolamento social, dificuldades de acesso a serviços, insuficiência de políticas públicas de cuidado e proteção, insegurança financeira e, em muitos casos, condições inadequadas de acolhimento. Tudo isso revela uma sociedade que ainda precisa aprender a enxergar o envelhecimento não como sinônimo de incapacidade, mas como parte da própria trajetória humana.

É preciso romper com a ideia de que as pessoas somente possuem valor enquanto produzem riquezas. Uma sociedade que descarta aqueles que envelhecem acaba, paradoxalmente, construindo um futuro no qual todos nós estaremos sujeitos ao mesmo descarte.

Cuidar de quem ajudou a construir o país não é favor. É responsabilidade coletiva. É compromisso ético. É também uma forma de compreender que o modo como tratamos as pessoas idosas revela muito sobre o país que somos e, sobretudo, sobre aquele que pretendemos ser.

Um Brasil verdadeiramente inclusivo precisa fortalecer redes comunitárias de apoio, garantir acessibilidade, combater o abandono, ampliar políticas públicas de cuidado e construir cidades nas quais as pessoas possam envelhecer com dignidade, autonomia e participação social.

E essa participação não termina com a aposentadoria. Pelo contrário.

A cidadania não tem prazo de validade.

O voto é uma das formas mais importantes de participação na vida democrática. Por meio dele, cada cidadão pode expressar suas escolhas, acompanhar os rumos do país e participar da definição daqueles que ocuparão espaços de representação política.

Por isso, às pessoas idosas, fica um convite à participação: acompanhem o debate público, conheçam as propostas, questionem, comparem informações e exerçam seus direitos de cidadania. A experiência de uma vida inteira também deve estar presente na construção do futuro.

Cora Coralina é um dos exemplos mais extraordinários de que não existe idade determinada para recomeçar, criar e ocupar espaços. Publicou seu primeiro livro aos 75 anos e transformou a própria experiência de vida em literatura, mostrando que o tempo pode ampliar horizontes em vez de fechá-los.

Talvez essa seja uma das grandes lições que o envelhecimento pode nos oferecer: não somos definidos apenas pelo tempo que já passou, mas também pela capacidade de continuar participando do tempo que ainda temos pela frente.

As pessoas idosas não são espectadoras da sociedade. São parte dela. São memória, experiência, conhecimento e presença. E devem ser reconhecidas como dãs e cidadãos em sua plenitude.

Participar é um direito. Votar é um direito. Ser ouvido é um direito.

Que ninguém se acomode diante da invisibilidade. Que ninguém aceite que envelhecer seja sinônimo de desaparecer.

Porque uma democracia verdadeiramente forte é aquela em que todas as gerações têm voz.

Por Walneide Romano
Presidente da APAMPESP