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APAMPESP - Associação de Professores Aposentados do Magistério Público do Estado de São Paulo

Quando a escola vira quartel: a Educação Pública sob ataque em São Paulo

O anúncio e a implementação das chamadas escolas cívico-militares no Estado de São Paulo, determinada pelo governador Tarcísio de Freitas, representam mais do que uma mudança administrativa: são um gesto político que afronta, de maneira direta, os princípios constitucionais da educação pública. Sob o discurso de ordem e disciplina, esconde-se um projeto que fragiliza a autonomia pedagógica, esvazia a gestão democrática das escolas e desvaloriza o trabalho docente.

Direito social fundamental assegurado pela Constituição Federal, a educação pressupõe liberdade de ensinar e aprender, valorização profissional, pluralidade de ideias e respeito à diversidade cultural e social. Nesse contexto, a inserção de policiais reformados como monitores escolares, com jornada de 40 horas e remuneração em torno de R$ 6 mil mensais — valor superior ao piso nacional do magistério para a mesma carga horária e acima do que recebe a maioria dos professores, muitos com décadas de carreira — escancara uma inversão de prioridades e um descompasso inaceitável na política pública educacional.

Não se trata apenas de uma questão orçamentária, mas de concepção. A presença de agentes sem formação pedagógica nas escolas produz efeitos concretos e preocupantes. O episódio recente ocorrido em uma escola cívico-militar no interior paulista, no qual um monitor escreveu no quadro palavras como “descançar” e “continêcia”, com erros elementares de língua portuguesa, tornou-se símbolo eloquente do equívoco dessa política. Quando quem ocupa o espaço do ensino não domina sequer os fundamentos da linguagem, o que se compromete não é apenas a forma, mas o próprio sentido da educação.

É constrangedor constatar que atividades que exigem formação específica, domínio didático e sensibilidade pedagógica sejam delegadas a profissionais alheios ao campo educacional, enquanto professores licenciados, experientes e comprometidos são relegados à invisibilidade. A cena é quase alegórica: em nome da disciplina, substitui-se o conhecimento; em nome da ordem, esvazia-se o saber.

Além disso, a militarização das escolas não enfrenta — nem pretende enfrentar — os reais problemas da educação paulista e brasileira: salários defasados, infraestrutura precária, salas superlotadas, falta de materiais didático-pedagógicos, sobrecarga de trabalho e ausência de políticas consistentes de formação continuada. A militarização pode produzir uma aparência de controle, mas não constrói aprendizagem, não forma cidadãos críticos e não melhora, em essência, os processos educativos, que dependem de diálogo, escuta, mediação qualificada e construção coletiva do conhecimento.

Encerrar esse debate exige reafirmar uma verdade que alguns insistem em ignorar: educação se faz com educadores. O saber acumulado pelos professores, inclusive — e especialmente — pelos professores aposentados, é patrimônio social, histórico e pedagógico que não pode ser descartado ou substituído por soluções improvisadas e autoritárias. Valorizar a educação pública é reconhecer o professor como sujeito central do processo educativo, respeitar sua trajetória, sua experiência e sua autonomia. Transformar escolas em quartéis não eleva a educação; apenas a afasta de sua função maior: formar pessoas livres, críticas e conscientes de seu papel na sociedade.

Por Walneide Romano
Presidente da Apampesp