{"id":11885,"date":"2026-02-05T11:40:12","date_gmt":"2026-02-05T14:40:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.apampesp.org\/aps\/?p=11885"},"modified":"2026-02-05T11:41:11","modified_gmt":"2026-02-05T14:41:11","slug":"quando-a-escola-vira-quartel-a-educacao-publica-sob-ataque-em-sao-paulo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apampesp.org\/aps\/2026\/02\/05\/quando-a-escola-vira-quartel-a-educacao-publica-sob-ataque-em-sao-paulo\/","title":{"rendered":"Quando a escola vira quartel: a Educa\u00e7\u00e3o P\u00fablica sob ataque em S\u00e3o Paulo"},"content":{"rendered":"\n<p>O an\u00fancio e a implementa\u00e7\u00e3o das chamadas escolas c\u00edvico-militares no Estado de S\u00e3o Paulo, determinada pelo governador Tarc\u00edsio de Freitas, representam mais do que uma mudan\u00e7a administrativa: s\u00e3o um gesto pol\u00edtico que afronta, de maneira direta, os princ\u00edpios constitucionais da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Sob o discurso de ordem e disciplina, esconde-se um projeto que fragiliza a autonomia pedag\u00f3gica, esvazia a gest\u00e3o democr\u00e1tica das escolas e desvaloriza o trabalho docente.<\/p>\n\n\n\n<p>Direito social fundamental assegurado pela Constitui\u00e7\u00e3o Federal, a educa\u00e7\u00e3o pressup\u00f5e liberdade de ensinar e aprender, valoriza\u00e7\u00e3o profissional, pluralidade de ideias e respeito \u00e0 diversidade cultural e social. Nesse contexto, a <strong>inser\u00e7\u00e3o de policiais reformados como monitores escolares, com jornada de 40 horas e remunera\u00e7\u00e3o em torno de R$ 6 mil mensais \u2014 valor superior ao piso nacional do magist\u00e9rio para a mesma carga hor\u00e1ria e acima do que recebe a maioria dos professores, muitos com d\u00e9cadas de carreira \u2014 escancara uma invers\u00e3o de prioridades e um descompasso inaceit\u00e1vel na pol\u00edtica p\u00fablica educacional<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se trata apenas de uma quest\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria, mas de concep\u00e7\u00e3o. A presen\u00e7a de agentes sem forma\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica nas escolas produz efeitos concretos e preocupantes. O epis\u00f3dio recente ocorrido em uma escola c\u00edvico-militar no interior paulista, no qual um monitor escreveu no quadro palavras como \u201cdescan\u00e7ar\u201d e \u201ccontin\u00eacia\u201d, com erros elementares de l\u00edngua portuguesa, tornou-se s\u00edmbolo eloquente do equ\u00edvoco dessa pol\u00edtica. Quando quem ocupa o espa\u00e7o do ensino n\u00e3o domina sequer os fundamentos da linguagem, o que se compromete n\u00e3o \u00e9 apenas a forma, mas o pr\u00f3prio sentido da educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 constrangedor constatar que atividades que exigem forma\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, dom\u00ednio did\u00e1tico e sensibilidade pedag\u00f3gica sejam delegadas a profissionais alheios ao campo educacional, enquanto professores licenciados, experientes e comprometidos s\u00e3o relegados \u00e0 invisibilidade. A cena \u00e9 quase aleg\u00f3rica: em nome da disciplina, substitui-se o conhecimento; em nome da ordem, esvazia-se o saber.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, a militariza\u00e7\u00e3o das escolas n\u00e3o enfrenta \u2014 nem pretende enfrentar \u2014 os reais problemas da educa\u00e7\u00e3o paulista e brasileira: sal\u00e1rios defasados, infraestrutura prec\u00e1ria, salas superlotadas, falta de materiais did\u00e1tico-pedag\u00f3gicos, sobrecarga de trabalho e aus\u00eancia de pol\u00edticas consistentes de forma\u00e7\u00e3o continuada. A militariza\u00e7\u00e3o pode produzir uma apar\u00eancia de controle, mas n\u00e3o constr\u00f3i aprendizagem, n\u00e3o forma cidad\u00e3os cr\u00edticos e n\u00e3o melhora, em ess\u00eancia, os processos educativos, que dependem de di\u00e1logo, escuta, media\u00e7\u00e3o qualificada e constru\u00e7\u00e3o coletiva do conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Encerrar esse debate exige reafirmar uma verdade que alguns insistem em ignorar: <strong>educa\u00e7\u00e3o se faz com educadores. O saber acumulado pelos professores, inclusive \u2014 e especialmente \u2014 pelos professores aposentados, \u00e9 patrim\u00f4nio social, hist\u00f3rico e pedag\u00f3gico que n\u00e3o pode ser descartado ou substitu\u00eddo por solu\u00e7\u00f5es improvisadas e autorit\u00e1rias<\/strong>. Valorizar a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica \u00e9 reconhecer o professor como sujeito central do processo educativo, respeitar sua trajet\u00f3ria, sua experi\u00eancia e sua autonomia. Transformar escolas em quart\u00e9is n\u00e3o eleva a educa\u00e7\u00e3o; apenas a afasta de sua fun\u00e7\u00e3o maior: formar pessoas livres, cr\u00edticas e conscientes de seu papel na sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por Walneide Romano<\/strong><br><strong><em>Presidente da Apampesp<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O an&uacute;ncio e a implementa&ccedil;&atilde;o das chamadas escolas c&iacute;vico-militares no Estado de S&atilde;o Paulo, determinada pelo governador Tarc&iacute;sio de Freitas, representam mais do que uma mudan&ccedil;a administrativa: s&atilde;o um gesto pol&iacute;tico que afronta, de maneira direta, os princ&iacute;pios constitucionais da educa&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica. Sob o discurso de ordem e disciplina, esconde-se um projeto que fragiliza a autonomia pedag&oacute;gica, esvazia a gest&atilde;o democr&aacute;tica das escolas e desvaloriza o trabalho docente. 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